‘’O poema é uma petição, uma petição é um poema’’.
The dreamers
A frase acima faz parte de um dos diálogos mais interessantes presentes no filme ‘’The Dreamers’’( Os Sonhadores,2003 ), produção Ítalo Franco Britânica baseada no romance de Gilbert Adair e adaptada ao cinema pelo diretor italiano Bernado Bertolucci.
Para entender a frase e alguns ganchos fictícios e históricos presentes no filme é necessário analisar o interessante contexto político e social do qual emergiu a década de sessenta, e sua relação intrínseca ao cinema na França, epicentro cultural e revolucionário de uma época. ‘’Maio de 68’’, conhecido historicamente como o efervescente ‘’Maio Francês’’, é o pano de fundo usado pelo diretor, um cinéfilo inveterado, para narrar os acontecimentos e sentimentos prolíferos da Meca do cinema francês, mundial e contemporâneo, sintetizados pelos protagonistas Matthew e os gêmeos Isabelle e Theo, respectivamente; Michael Pitt, Eva Green e Louis Garrel, estes últimos atores franceses.
A geração que viveu a década de sessenta experimentou os limites em todos os âmbitos que poderia experimentar; a liberação sexual andava a pleno vapor alavancada pela novidade das pílulas anticoncepcionais, os ídolos da música pareciam estar no limite e a beira do abismo: Jimi, Janis, Jim, formaram a estranha e macabra aliteração dos 27 e o mundo assistia à guerra do Vietnã, uma clara alusão aos conflitos decorrentes da ‘’guerra fria’’ que dividiu o mundo em dois blocos políticos.
Na França, Paris, em Fevereiro de 1968 a atmosfera da revolução perpassava o palácio de Chailot, onde ficava a cinemateca francesa, e a concentração absoluta da chamada ‘’New Wave’’ ou Nouvelle Vague, o berço do cinema contemporâneo de onde saíram nomes como Jean Luc Godard e François Truffat, ‘’a maçonaria’’ do cinema se encontrava ali.
O termo maçonaria é usado pelo protagonista Mathew ao chegar ao Palácio de Chailot, divagando que ‘’só os franceses poderiam colocar um cinema em um palácio’’.
A revolta estudantil é iniciada quando o administrador da cinemateca, Henri Laglois é demitido por ‘’má administração’’, obrigando a ‘’cinemathèque’’a fechar suas portas, e o que começou como uma simples manifestação cultural de jovens cineastas culminou em um protesto de proporções nacionais, que mobilizou diversos setores na França, o país quase parou.
As primeiras cenas de ‘’Os Sonhadores ‘’ recriam esses eventos.
Paralelamente a esses acontecimentos históricos, nos é apresentada a curiosa relação entre um jovem americano estudante em intercâmbio (Mathew), e um casal de gêmeos franceses, filhos de um famoso escritor.
Há uma paixão estranhamente poética pelo cinema em sua interação: eles realizam jogos entre si utilizando seus conhecimentos acerca da sétima arte para ganhar ou perder; quem ganha humilha, quem perde é humilhado com estranhas ‘’prendas’’. O trio passa a maior parte do tempo trancado em um apartamento, sonhando, divagando sobre política, música, guerra e claro: cinema.
Estes jovens na casa dos vinte anos estão inseridos na história praticamente à parte da revolução que eclodia nas ruas de Paris, mas representam bem o caos interno vivido por uma geração que ansiava por transgressão e cujo um dos principais lemas era: ‘’Não confie em ninguém com mais de trinta anos’’.
Um incesto não declarado e cenas que beiram uma inocência literalmente nua são alguns dos artifícios usados pelo diretor para sintetizar o ‘’êxtase da história’’ ou a ‘’demência coletiva’’, termo cunhado em entrevistas para o livro: ‘’1968, o ano que não terminou’’ do brasileiro Zuenir Ventura, lançado em 1988.
A atmosfera revolucionária também perpassou o Brasil na década de sessenta, embora tenha ficado em ambos os casos (Brasil e França) mais na poesia e no sonho que na prática, considerando os feitos de uma geração que ‘’pôde servir de lição, mas não de exemplo’’, uma paráfrase das palavras de Mário de Andrade no prólogo do livro ‘’1968’’.
O filme de Bertolucci e o livro de Zuenir Ventura retratam a história como um ‘’romance sem ficção’’, é fato que os acontecimentos do Maio Francês ainda são constantemente aludidos em diversos setores artísticos e culturais franceses, e tratando-se de um país que sempre esteve no centro das mais significativas explosões culturais ao longo da história da humanidade, não se pode deixar de considerar sua importância.
Encerro este post com uma célebre frase de Bernado Bertolucci, que ouvi no documentário ‘’Cinema, Sex, Politcs’’ (making of de Os Sonhadores):
‘’O francês é a língua do cinema’’, julgo pertinente acrescentar que neste caso, o cinema foi, portanto, a língua de um sonho de revolução.
Bruna Angelica Assen



Tá ótimo, Bruuu, parabéns!
ResponderExcluirComo já havíamos discutido em grupo, acho o filme de uma qualidade tremenda, além de adorar a forma como vc lincou tudo isso junto. (e ainda por cima postou imagens, sem problemas! kkk)
O próximo Post aqui será o meu, né? Aiaiaiii...
Beijos (Juh Prol)!!